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Homenagem - Parte 2

Montou seu consultório e começou a trabalhar, algumas fases difíceis, porém quem iniciava um tratamento sempre elogiava seu desempenho. Talvez não tenha obtido maior êxito devido ao preconceito de pessoas que achavam que sua deficiência poderia atrapalhar e que não tivesse muito que acrescentar. Mero engano, deveriam pensar que apesar de sua deficiência e as barreiras que isto proporcionava conseguiu se formar e aprender muito com isto e era um modelo de força de vontade e dedicação.
Quando o convidei para ser o mestre de cerimônias do meu casamento titubeou, porém não teve como fugir. Escreveu um texto emocionante que emocionou a todos e conduziu de forma esplêndida o cerimonial.
Continuou seus estudos como auto-didáta e logo saiu sua primeira publicação em um livro de crônicas dirigido para deficientes. Não demorou muito e começou a escrever para uma revista também dirigida para este público entitulada Reabilitação.
Datilografar os textos estava desgastante e seu interesse por informática já era grande, primeiro adquiriu um palm e na seqüência veio o notebook.
Minhas primeiras aulas para ele foram básicas, neste novo mundo que estava ingressando, quando tinha dúvidas eu ia até sua casa ou resolvíamos por telefone ou e-mail. Se mostrou um ótimo aluno em pouco tempo elaborava seus textos, alterava formatações da máquina, efetuava tratamento de fotos e para minha surpresa me convidou para visitar seu BLOG. Este aqui mesmo Botequim do Giba, esta aí uma coisa que não sei, o porque deste nome Botequim até que passa pois adorávamos um, agora do Giba. Alguém sabe?
Por mais que escreva dificilmente conseguirei descrever a pessoa que foi Roberto Rodrigues Gimenes Ibanhez, só me dei a honra de deixar aqui um pequeno relato da vida de uma pessoa que foi admirada e amada por muitos.
Roberto, um grande beijo onde quer que esteja.
Eduardo José Rodrigues de Almeida
Escrito por Roberto Ibanhez às 19h07
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Homenagem - Parte 1
Estava eu aqui prestes a clicar em "Excluir este Blog", quando pensei que talvez um amigo que gostava tanto de escrever iria gostar de ver algumas linhas publicadas em sua homenagem.
Já são dois meses sem meu grande amigo Roberto, amigo de gargalhadas, amigo de baladas, amigo de bate-papo, amigo conselheiro, amigo, amigo, amigo...........
Conheço Roberto "desde que me conheço por gente", sempre esteve ali em meio aos seus livros, suas músicas seu bom papo. Quando era pequeno passava alguns dias de minhas férias em sua casa. Como qualquer criança acordava logo cedo e ficava esperando ele se levantar, pois meio-dia era cedo para o rapaz. Neste meio tempo minha diversão era brincar com os pássaros que circulavam pelo jardim e transpor as barreiras de seu escritório "secreto", pois eu era o único que tinha permissão de permanecer por lá quando ele não estava.
Ligava a TV, seu super som e vez ou outra sentava em sua cadeira de rodas para andar pela casa, pura inocência de criança, achava o máximo, sem pensar que ali estava uma pessoa que daria muito para poder se locomover normalmente.
Com o passar do tempo a amizade foi aumentando e de primo passamos a amigos.
Ele me inseriu no mundo do rock, um de seus presentes que mais utilizei foi um gravador portátil que veio em conjunto com uma fita da imortal Rita Lee. Este gravador ainda foi muito útil quando obtive meu primeiro microcomputador um MSX, utilizava para carregar os programas que eram transmitidos pela rádio USP e armazenados em fita cassete.
A primeira vez que fui ao Shopping Ibirapuera ele quem me levou em companhia de sua namorada, achei o máximo aquele estacionamento que subia em forma de caracol.
O primeiro show do Blues Etílicos quem me convidou?? Aliás me presenteou com o CD também. Nesta época ainda começamos a acompanhar uma banda que tocava no Café Maravilha cujo nome era Tomate Inglês, a guitarrista Kika arrasava.
Foram muitas baladas, risadas e bate-papos sempre regados de um bom vinho e seu inseparável Campari, sem faltar é claro na boa música, nossos últimos passeios foram na badalada Vila Madalena. Aliás em nosso último passeio tive a oportunidade de dizer o quanto o reverenciava e que era meu grande ídolo, sem demagogia, sua força de vontade e coragem para transpor obstáculos eram exemplos de vida a serem seguidos.
A deficiência de nosso amigo era genética aos sete anos parou de andar devido a esta doença rara que atrofia os músculos, foram inúmeras visitas a benzedeiros, curandeiros e médicos. Quando foi dado o diagnóstico os médicos eram unânimes, não passaria dos 25 anos, porém isto não abateu sua família que com muito carinho e amor conseguiu que ele tivesse motivação suficiente para chegar aonde chegou.
Sempre foi bom aluno, na universidade inclusive prestou monitoria aos alunos de turmas anteriores, se formar foi sua primeira meta.
Escrito por Roberto Ibanhez às 19h05
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Estou de Molho
Botequeiros, estou adoentado. Peguei uma forte gripe na segunda-feira anterior. Por isso as respostas de comentários e e-mails irão atrasar.
Conto com a comprensão. Gosto muito de vocês, por isso continuem comentando.
Um forte abraço.
Escrito por Roberto Ibanhez às 17h47
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Os Imigrantes
O brasileiro é um povo que conhece muito pouco a história de seus ascendentes familiares. Exceto alguns setores da elite econômica e cultural, que têm documentada a trajetória de seus familiares por várias gerações, a maioria das pessoas mal conhecem a história de seus próprios avós. Esse quadro de ignorância vem se alterando no presente. Tudo e todos são mais documentados, a imprensa, a maior escolaridade das pessoas e a globalização das comunicações têm expandido a consciência da população fazendo-a enxergar o tempo além dos limites da data de nascimento de cada um, e o mundo além dos limites do município que se vive. Tem ajudado, também, a maior longevidade das pessoas, o que torna possível muitos das gerações mais nova conhecerem e conviverem com seus bisavós. Para eu conseguir montar, não uma árvore, mas um arbusto genealógico muito dos raquíticos com poucos galhos, e sendo alguns quebrados, de meus antepassados, contei apenas com o impreciso relato verbal de alguns parentes e da pouca e dispersa documentação que consegui. Espanhóis, negros, italianos, índios e portugueses que compõem minha história familiar, muitos não tinham nem certidão de nascimento, e outros não deixaram rastros de suas andanças. E como quase todos eram analfabetos não escreveram nem uma mísera carta que pudesse abrir uma pequena janela desse passado impreciso.
Meus avós paternos, Estevão e Francisca, espanhóis, deixaram para trás seu país e familiares quando imigraram para o Brasil. Muito fechados e pouco comunicativos quase nada revelaram aos filhos que, aliás, já faleceram quase todos. Portanto não sei nada da vida deles lá na Espanha nem de seus parentes. Ainda não procurei no consulado.
Meus avós maternos, Clarindo e Amélia, são mestiços: meu avô é filho de negro e mãe bugra, como ele dizia, ou seja, era uma índia nativa. Ele tinha um certo aspecto de pajé, com pele cor de bronze, de estatura baixa e de físico robusto. Não é possível levantar a documentação dessas pessoas, se é que existe. Esse meu avô só veio tirar a certidão de nascimento para poder casar. Sua esposa, minha avó, era filha de um caipira descendente de portugueses e de uma parteira e benzedeira filha de imigrantes italianos. Esse meu bisavô, que conheci e convivi por muitos anos, também não possuía nenhum papel oficial que pudesse dar uma pista, e menos ainda sua esposa que faleceu muito jovem devido, ironicamente, a um parto complicado. Mas ela foi a única pessoa que consegui rastrear algo concreto.
Ao ser inaugurado, aqui em São Paulo, o Memorial do Imigrante que reúne em um só local a história e a documentação das pessoas que imigraram para cá, fez surgir uma pista real a ser investigada. O governo de São Paulo recrutou muita mão de obra estrangeira a partir do século XIX, e se os pais de minha bisavó tivessem imigrado da Itália em um desses contingentes, provavelmente a passagem deles estaria registrada ali. Então fui conhecer o local (farei um post sobre isso), levando na mão apenas um pedaço de papel com o nome deles anotado: Giacomo e Santa Trevisan. A própria diretora do Memorial à época, dona Midore, fez questão de me atender. Realmente, todos os livros de registro de desembarque estão lá preservados, e parte deles já foram digitalizados. Em poucos minutos ela entregou em minhas mãos um documento oficial onde consta o nome do casal e de três filhos, a data do desembarque e o nome do navio que os trouxe para a América.
No momento que segurei esse papel nas minhas mãos fui tomado de uma forte emoção. Um nó se formou na minha garganta, meus olhos ficaram mareados e eu, que não sou espírita e nem religioso, tive a nítida sensação de que algo se incorporou em mim. Passados poucos minutos eu consegui falar: “São eles! São eles, sim. Tenho certeza!”
Já em casa, ainda fiquei olhando para aquele documento por muito tempo. Os pais e irmãos de minha bisavó chegaram em 1887, pobres e com uma magra bagagem. E fiquei imaginando como teria sido esse dia de chegada para eles. Um pedaço de papel impresso com o nome de cinco pessoas, mas que para mim é uma parte da minha história, minha vida e minha identidade.
Escrito por Roberto Ibanhez às 01h27
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Algo de Podre
O referendo que se realizará no próximo domingo, eu vejo como mais uma das muitas tapeações deste incompetente e corrupto governo do PT. Ainda não me foi dito qual o verdadeiro objetivo dessa consulta. Afinal, por que proibir o comércio de armas de fogo? Os argumentos apresentados pela campanha do “sim” são ridículos e não resistem a uma análise mais detalhada. E colocar artista para opinar num assunto técnico é risível. Seria melhor eles permaneceram no circo, no sentido de showbiz que é o meio deles, a ficar dando palpite naquilo que não dominam. E a campanha do “não” se ocupa apenas em rebater os argumentos do “sim”; o que não é tão difícil; além de insistir na tecla do “direito do cidadão”. Por que o “não” se recusa a expor a verdade?
Há algo de muito podre no ar. Tudo isso cheira muito mal.
Por isso vou de “NÃO”.
É melhor deixar as coisas como estão a se entrar numa fria por falta de informação.
Escrito por Roberto Ibanhez às 01h46
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Obrigado
Eduardo e Cintia, Matheus, Aracy, Lívia, Silvana, Carolina, Lucilia, Andrea, Grace, Teresa, Alberto, Mara, Cidão e Regina, Ricardo, Renata, Analúcia, Catarina e Enzo, Cilene, Dani Falks, Luiza, Marcia, Kamalla e Claudia.
Agradeço a essas pessoas que me cumprimentaram na passagem de meu aniversário, telefonando, por e-mail ou passando por aqui. Apesar do frio que fez vocês esquentaram meu dia e me fez muito feliz. Se faltou alguém, por favor grite.
Gosto muito de vocês.
Um beijo e um forte abraço a todos.
Escrito por Roberto Ibanhez às 01h17
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Defunto Vivo
Essa eu tirei não do arquivo, mas do sarcófago de recordações sepultado no plano mais inferior do mausoléu. O esqueleto carcomido emergiu da tumba devido a um texto que li num blog amigo. A lembrança veio clara e íntegra, apesar dos muitos anos passados, e me fez rir muito, ao contrário da época do acontecido onde desejei ser um espectro para poder circular sem ser visto. Que situação mais horrível, pois quando a alma está ferida fica-se vulnerável e até uma leve brisa nos atinge. O que dirá ficar de cara com a causa do sofrimento: é devastador.
Quando eu cursava o segundo ano de faculdade conheci uma moça no início da primavera. Ela gostou de mim assim que me viu e tratou de se instalar no meu filme. Estava lá quando eu chegava, ficava por perto dando deixas para iniciar um papo e mandava bilhetinhos. Bom, embarquei. Eu estava carente e vulnerável (mas não sabia), e também solitário (isso eu sabia). Ela estava passando por uma dor-de-cotovelo e com a auto-estima lá no calcanhar devido a um pé na bunda recente. Receita boa para produzir o romance dos fodidos. E foi o que aconteceu: em poucas semanas aquela morena, de vasta cabeleira negra como piche, virou o centro de minha vida. Passeios, jantares, barzinho, cinema, ou então ficávamos em casa mesmo, afinal ela era uma atração e tanto. Assim foi a primavera até o final do ano letivo e início do verão, Natal com troca de presentinhos e Ano Novo com big festa na casa de conhecidos. Janeiro teve duas semanas com direito a praia, o mesmo ocorrendo no carnaval. Corpos seminus em tempo integral faziam a temperatura, que já era alta, subir com maior rapidez. Eu adorava ficar acariciando seu corpo todo, e não cansava de beijar seus seios miúdos. Era um tesão que não tinha fim.
Antes dela minha vida era vazia e chata: aulas na faculdade todos os dias, estágios, monitoria, livros para ler, trabalhos, reunião de grupo, tomar batida em algum bar depois da reunião, todo final de semana tinha roda de samba na casa de alguém, aniversários, se organizavam churrascos pelos mais variados motivos e ainda muitas mulheres bonitas dispostas a fazer companhia. Mas quando a morena apareceu todo esse vazio e solidão desapareceram como que por encanto. Todos os dias ficaram cheios e alegres. Pois é, durou pouco. Em abril, pleno outono, com o frio já chegando e querendo se instalar, tomei um pé na bunda. Meu mundo desabou e eu pirei. Virei um cachorrinho abandonado. Como estávamos na mesma escola nos cruzarmos no campus não era difícil, então eu procurava cominhos alternativos ou evitava certos locais em determinadas horas. Uma paranóia só. Esse inferninho se arrastou até junho, final de semestre, quando pude sumir por um mês e ficar em casa lambendo ferida.
Mas no fim de julho o bicho começou a crescer novamente. O inicio de um novo semestre estava chegando. Iria vê-la novamente. E agora? Bom, ainda faltavam uns dias, e eu precisava fazer a matrícula. E se ela estivesse por lá? Não, não seria possível. No mesmo dia e hora, em pleno mês de férias escolar, seria quase impossível nos encontrarmos. Mas para prevenir fui lá no final da tarde. Cheguei às seis horas, e já estava escuro devido aos dias serem mais curtos no inverno. O campus estava deserto e na maior escuridão, e um vento gelado que fazia o local ficar mais lúgubre ainda. Entrei na larga passarela que conduzia para a porta do edifício e vi lá na outra extremidade uma pessoa saindo. Era uma moça de cabelos bem curtos que eu não reconheci. Andava em minha direção, mas sem olhar para frente, ocupada em vestir o casaco e segurar a bolsa e uma pasta para papéis. Não identifiquei nela nenhuma das colegas, e a penumbra também atrapalhava formar uma imagem inteira. Já nos cruzando a moça levantou o rosto olhando direto para mim. Era ela com os cabelos cortados. Levamos o maior susto. O meu coração veio parar na boca como se eu estivesse vendo um defunto a andar naquele lugar escuro e vazio. Paramos, depois de um “Oi!” muito chocho. Ela falou que estava se transferindo para outra faculdade com curso noturno, pois queria trabalhar, e foi lá levar a documentação; apontando para a pasta. E foi assim que esse defunto se desmaterializou para sempre do campus, numa gélida e deserta noite escura de julho.
Fiquei muito mal naquele dia. A dor de cotovelo e a raiva fizeram companhia até o outro inverno, quando os dias começaram a clarear novamente. Nesse período vieram me contar que todo o pessoal já esperava que eu iria entrar pelos canos com aquela morena. Também encontrei a irmã dela que disse também saber que eu acabaria me machucando, pois ela era insensível e cruel. Por isso que o namorado anterior a havia deixado: ele não agüentou.
Só eu não vi. Como era idiota. Como também não vi que tinha a vida cheia, tinha tudo para ser feliz e ainda pessoas a minha volta que olhavam para mim.
Escrito por Roberto Ibanhez às 02h30
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Helena Meireles

"Fui mulher que nasci para agüentar paradas duras, porque nunca aceitei ser mandada por homem. Nasci prá ser eu, resolver tudo, em qualquer lugar do mundo." Helena Meireles em entrevista à Rosa Nepomuceno para o livro "Música Caipira - Da Roça ao Rodeio" citada na página 405.
Para quem não a conhece, Helena Meireles foi uma eximia violeira que faleceu no dia 29 de setembro passado contando, então, 81 anos de idade. Começou a tocar viola aos 9 anos de idade, pois ficou encantada com o instrumento quando o conheceu. Era filha de fazendeiro e morava em fazenda no Mato Grosso do Sul. Na época moça direita não podia dançar e muito menos tocar viola para marmanjo, então seu pai a proibiu de tocar com a ameaça de cortar seus dedos. Ele não cortou seus dedos, mas sim as cordas da viola, que ela substitui por linha de costura e tocava escondida no meio da plantação. Casou com 17 anos por imposição do pai, mas se separou porque o marido também não a deixava tocar. Seu segundo casamento também não deu certo. Abandonou a família e deixou os filhos com pessoas para os criarem, e foi andar pelo mundo. Tocava em prostíbulos e bares, e seu público era principalmente os vaqueiros que a adoravam. Teve vários amantes até conhecer seu terceiro marido com quem viveu por 35 anos. Ficou conhecida nacionalmente depois que foi citada pela revista Guitar Play, onde foi comparada Eric Clapton e Keith Richards, entre outros. Aos 69 anos conheceu a fama, tocou em teatros e na televisão e gravou quatro CDs.
A música sertaneja não está entre as dez mais na minha preferência, mas quando a ouvi fiquei literalmente bestificado. Desde então sou seu fã, assim como de Pena Branca e Xavantinho que possuo vários discos. O talento de Helena supera o estilo, como qualquer grande artista. É arte pura que transcende nosso gosto estético, criada por gente de alma livre e dona de seus desejos e sentimentos.
Mais informações no site Boa Música Brasileira
E nosso Brasil continua dando show em mau gosto e incompetência, relegando ao ostracismo talentos raros e valiosos e enaltecendo todo tipo de lixo cultural e mediocridades consagradas. Estou falando com você mesmo, imbecil, que assiste só a globo e o sbt.
Escrito por Roberto Ibanhez às 23h36
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Primavera
Ontem, finalmente, São Paulo teve um dia típico de primavera com muita luz, temperaturas subindo e o sabiá cantando à tarde nas árvores lá do quintal, depois de um fim de semana gelado e chuvoso. Nesse ano o mês de setembro inteiro fez frio. No dia do meu aniversário fiquei dentro de casa com o aquecedor ligado. Foi um saco. Eu não gosto de frio, fico mal humorado e, nos dias com temperaturas abaixo de 10º C, também depressivo. Ontem meu mau humor foi embora como que por encanto, meu astral melhorou e os problemas ficaram bem menores e com soluções mais fáceis. O inverno é minha TPM. E que TPM comprida. Para minha total felicidade os dias serão assim até o início do mês de abril próximo, ou seja, seis meses sem precisar de roupas pesadas, a casa com janelas e portas sempre abertas e torneiras sem água gelada. E uma enorme disposição para passear. São Paulo tem temperaturas amenas, então os dias mais quentes são poucos e intercalados por muitos dias mais frescos. Diferente do interior do Estado onde o calor é sufocante. O único ponto negativo são as enchentes que ocorrem entre os meses de janeiro e fevereiro. São meses normalmente chuvosos e que trazem muitos problemas para a cidade se for muito intenso. Hoje o governo inaugurou o 20º piscinão construído, que servem para captar o excesso de água amenizando as cheias. Isto, e mais as obras realizadas nas bacias dos rios Tietê e Pinheiros prometem amenizar o problema. Vamos aguardar.
Agora começo a encher a geladeira com cerveja, suco de frutas - principalmente de manga e pêssego -, coca-cola, água tônica e sorvete de chocolate. Passear no Ibirapuera para ver as aves aquáticas nos seus lagos, e ir ao maior número de exposições possível, pois os museus daqui, em sua maioria, estão localizados em locais agradáveis ou em áreas verdes, são os melhores passeios vespertinos. Jantar no shopping vendo o desfilar das mulheres, ou ficar bebericando num boteco com mesas ao ar livre é o melhor à noite. O que não falta é o que fazer.
Enfim, chegou a primavera. E em dezembro o verão. E São Paulo está aí para ser desfrutado.
Escrito por Roberto Ibanhez às 23h35
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Bolinho de Chuva
Eu gostava muito de ficar na casa de minha avó nas férias escolares, como já contei aqui, no post “Água Benta”. Nos dias de tardes chuvosas, ou muito friorentas, ela fazia bolinhos doces com café. É, os temporais por lá eram assustadores. O local era aberto, havia muita vegetação, a casa ficava numa pequena colina e sem vizinhos em volta. Por isso as tempestades eram mais barulhentas e com ventos mais fortes, pois ele corria livre pelos descampados sem nenhum obstáculo. Diferente dos centros urbanos onde o excesso de construções amortiza o vento e o barulho. Lá se ficava no meio da tormenta com a ventania uivando escandalosamente, as árvores se descabelando, o barulho pesado da água caindo e os trovões fazendo a casa tremer. Eu morria de medo. Ficava a-pa-vo-ra-do. Para amenizar o susto minha avó queimava algumas ervas (que não lembro o nome) no fogão, e começava a fazer os bolinhos de chuva. Farinha, manteiga, leite, ovos e açúcar compunham a receita básica. Massa no ponto, ela enrolava em forma de charutinhos e unia as extremidades dando a forma final de rosquinhas. Não demorava mais que dez minutos, que era o tempo da tempestade começar a amainar. O que ela atribuía ao efeito das ervas queimadas. Nesse ponto eu estava ansioso pelos bolinhos, e já estava esquecendo dos trovões. Mas ainda pálido, com os olhos arregalados e tremendo. Então ela pegava uma frigideira grande, colocava bastante óleo e punha água para ferver na chaleira. Enquanto a água ia esquentando ela fritava os bolinhos e, já prontos, os colocava numa travessa. Passava o café no coador de pano, e levava para a mesa a travessa e o bule fumegando. Na mesa, com os bolinhos menos quentes, ela pulveriza por cima deles um pouco de açúcar. O cheiro delicioso que tomava conta da cozinha expulsava de mim os últimos estertores do temporal. Café na canequinha; pois em casa caipira se toma café na caneca; e o bolinho quente entre os dedos, eu ia esquecendo o medo enquanto me deliciava com muitos e muitos bolinhos com café.
Escrito por Roberto Ibanhez às 00h14
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Amigo x Inimigo
O que diferencia o amigo do inimigo?
O inimigo fala de mim.
O amigo fala para mim.
Escrito por Roberto Ibanhez às 22h59
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Pizza e Pastel
Quando eu era pequeno, antes até de me alfabetizar, meu prato preferido era a pizza. Ou “pista”, como eu pronunciava e todos entendiam. Assim como eu falava “ombus”, que era o mesmo que ônibus. Passeio onde se incluía pizza, pastel de queijo ou sorvete eu estava dentro. Na época as pizzarias em São Paulo ainda eram poucas, por isso era um bom programa para o sábado ou domingo à noite. Aqui no bairro tinha uma que meus pais freqüentavam. Ao entrar no recinto o cheirinho de pizza assando e o ruído dos talheres e louças, acabavam me transportando para outra dimensão. Quando o garçom a trazia para mesa, eu arregalava tanto os olhos que o pessoal ria de mim. Que delícia era mastigar aqueles pedacinhos de massa crocante, cortados por minha mãe. O difícil era me convencer que não tinha pizza quando íamos jantar em outros restaurantes, que não eram pizzaria. Com o tempo eu fui distinguindo um do outro e parei de encher o saco. Hoje eu não me lembro de nenhum desses restaurantes, mas sim de algumas pizzarias.
Uns parentes nossos moravam na rua 13 de Maio, esquina com a rua Brigadeiro Luis Antonio. Eu adorava ir lá, primeiro para brincar com os carrinhos do meu primo e, segundo porque ao lado do edifício que eles moravam tinha uma pastelaria. Então, eu ficava esperando ansiosamente a hora que os homens desciam para “tomar uma”, pois aí eu ganhava um pastel de queijo bem gordo.
Com o passar dos anos o número de pizzarias foi crescendo, e as pizzas foram melhorando em qualidade e virando grife. Vários recheios foram acrescentados, além dos originais muçarela e aliche (como se escreve essa palavra?). Tem as pizzas do Brás e do Bexiga, dos Jardins e da Consolação, entre muitas outras. Todas deliciosas. E cada casa ainda tem sempre um bom vinho para acompanhar. São Paulo não inventou a pizza, mas a tornou a melhor do mundo. Já as pastelarias quase desapareceram. Os pastéis hoje são vendidos com outros quitutes, ou nas feiras livres, e não mudou no seu formato e gosto. Só ganhou mais alguns recheios.
Hoje, a pizza não é o meu prato favorito, mas continua entre os dez mais. E, pastel de queijo com cerveja é bom demais.
Alguns pecados que são cometidos, ao se degustar uma pizza, que devem sempre ser evitados:
- pizza não é sanduíche, portanto não espalhe catchup. Fora de São Paulo é até comum, mas fazer isso numa pizzaria é uma afronta a casa. Sobre a pizza só azeite. Lembre-se, cada pizzaria é única;
- algumas pessoas colocam o pedaço de pizza no meio do pãozinho francês. Na pizzaria não é servido pão, portanto fazem em casa, mas não deixem o pizzaiolo saber;
- uma amiga de outro Estado, pediu pizza na hora do almoço e o garçom riu na cara dela. Pizza é no jantar, e de preferência com uma taça de vinho. De dia só mesmo em boteco de esquina, ou cantina de escola.
Bom apetite!
Escrito por Roberto Ibanhez às 01h18
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Hoje é O Meu Dia!
Era um sábado de 20 de setembro, e eu fui inaugurado. Cheguei às três e quinze da matina. Desde então eu detesto levantar cedo e adoro as madrugadas. Sou chegado em coisas de madrugador, como música, leitura, cinema, pintura, escrever, bate-papo e companhia feminina. Sim, eu as amo de paixão. Mas de preferência as amáveis, pois as chatinhas e mocréias (bruxas) é melhor que fique com seus maridinhos. Quem curte mulher mala é esposo. O bom do avançar da idade é ficar cada vez mais afiado nas idéias, criativo, perspicaz e com uma voracidade pelo novo quase obsessiva. O ruim é a decadência física. O corpo não mais acompanha a cabeça. É uma injustiça da natureza. Hoje eu já enxergo que minha vida é finita, o oposto da adolescência que tem todo o tempo pela frente. Passou rápido, rápido demais para mim que tinha um mundo de coisas para desbravar, decifrar e conhecer. Sim, sou descendente de famílias pobres e incultas e, por isso, sem o que herdar e sem dote. Minha sorte foi que meus pais se tornaram classe média, podendo então financiar meus estudos e formação intelectual. Um tanto a contragosto, pois eles ainda não vêem para que serve tudo isso. Estou feliz. Tenho muito o que fazer, e estou vendo que o tempo é curto. Essa é a parte chata. Não quero um carro e nem uma viagem de presente de aniversário. Quero ter saúde e o apoio e carinho de quem gosta de mim, porque só assim poderei continuar andando, fazendo e realizando.
Apenas isso.
Tudo isso.
Escrito por Roberto Ibanhez às 23h58
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Verdureiro
Moro na mesma casa há décadas, como falei num post anterior, o que possibilitou que eu acompanhasse as profundas mudanças operadas pelo tempo. Hábitos e costumes sofreram tamanha metamorfose que o local mais parece outro país. Uma coisa muito comum no passado eram os vendedores ambulantes. Não esses chatos de hoje, que tocam a campainha de nossa casa nas horas mais inconvenientes. E que jamais atendemos. Mas sim aqueles que vinham regularmente, conquistando a freguesia e, não raro, ficando amigo. O “Seu Antonio Verdureiro” foi um deles. Assim ele era conhecido pelas comadres, suas freguesas. Um dia ele apareceu em cima de uma carroça azul, puxada por um pangaré cinza muito sem graça. Parou em frente de casa, mas do outro lado da rua, pulou para o chão, pegou um cone de lata que fazia a vez de megafone, colocou na boca e gritou: “Baaaaatatinha amarela e graúúúúúda; laranja pêra do riooooo; tomate, tomateeee; banana nanicaaaa”. E esperou. Apenas uma vizinha saiu à rua para fazer uma pequena cesta com cenouras, mandioquinha, cheiro-verde e mais algumas frutas. Foi a mesma que havia pedido para que ele incluísse nossa rua em seu itinerário. Ele era um português forte, com idade por volta dos cinqüenta anos e sempre de chapéu. Sua figura pacata, afável e assexuada não assustava as donas-de-casa e, assim, ele foi conquistando a simpatia e a confiança das vizinhas. Se alguém queria alguma mercadoria que ele não tivesse no dia, na próxima visita ele trazia e entregava para a mesma, que ficava envaidecida com a lembrança. Ele era assim, chamava todas pelo nome e conhecia seus hábitos. A chegada dele passou a ser uma rotina, pois além das comadres contarem com as mercadorias para fazerem o almoço do dia, também virou uma pausa para colocarem os assuntos em dia e comentarem os últimos acontecimentos. Não raro ele também trazia notícias de algum conhecido, que morava em outra vila por onde passava com sua carroça. Ficava sabendo, com o passar do tempo, que fulana que morava do outro lado do bairro tinha se mudado daqui, que a tia de sicrana era aquela que morava perto da praça, etc., e assim ia passando as últimas sobre cada uma: se estava bem, se tinha alguém doente na família ou mesmo enviado lembranças.
Com o passar do tempo e o avanço da modernização tecnológica, transitar com carroça puxada por cavalo pelas ruas do bairro estava ficando inviável. As ruas não eram mais tranqüilas, o número de carros aumentava rapidamente agilizando o ritmo. O pangaré não podia acompanhar. O seu Antonio tratou, então, de modernizar. Se matriculou numa auto-escola, tirou a habilitação com muito esforço e comprou um pequeno caminhão fabricado na década de quarenta. Não sei onde ele encontrou o calhambeque, pois raramente ainda se via algum à época. E assim ele passou a vir, dirigindo seu velho caminhão aos trancos e arranhando as marchas quando cambiava. Foi o começo do fim. Apesar de anunciar sua chegada da mesma maneira, usar o mesmo chapéu e não alterar seus métodos de venda, alguma coisa morreu. Aquele homem tão integrado à carroça e ao pangaré não “casou” com o caminhão. Eram duas figuras estranhas entre si. Quando o veículo quebrava, ele não aparecia, deixando as comadres na mão. E o envelhecimento dele se acelerou. Não me lembro da última vez que o vi. Soube que se aposentara e que estava muito doente. Ficou um vazio que também foi se apagando com o tempo. Outro verdureiro apareceu, com uma caminhonete moderna e muito sortida, mas que não conseguiu cativar as comadres da rua. Seu Antonio Verdureiro era insubstituível. Comprar de outro era trair a sua lembrança.
Escrito por Roberto Ibanhez às 02h16
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Malufadas
Faixa estendida em frente a sede da Polícia Federal onde Paulo Maluf está detido:
Venda de títulos públicos em sua última gestão: R$ 1,5 bilhão Desvio de verba na construção da avenida Água Espraiada: R$ 800 milhões Movimentação financeira no exterior: US$ 161 milhões Ver Maluf e sua cria encarcerados após fraudes: não tem preço
Escrito por Roberto Ibanhez às 17h10
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Sem Limites
A ditadura militar que foi instalada no Brasil em 1964, colocou no poder uma súcia de corruptos e vigaristas, que amplificou a bandalheira para todos os setores sociais. Alias é característica de toda ditadura, tanto de direita quanto de esquerda, do Haiti a Cuba, a concentração de renda e o desvio de verbas públicas. Não que antes de 1964 não houvesse roubo dentro do governo: havia e muito, tanto que as campanhas políticas à época tinham como plataforma o combate à corrupção, além de ser o tema preferido dos humoristas. Sempre foi uma característica da nossa república. Mas pós 64 a coisa se alastrou de tal forma, que a transgressão passou a fazer parte do cotidiano de toda a sociedade, de forma aberta e sem nenhum escrúpulo. Foi a partir dessa época que as organizações criminosas mais cresceram e se fortaleceram, firmando sua atuação e operação em simbiose com o poder estatal. O contrabando, o jogo do bicho, o tráfico de drogas e armas, entre outros, atuavam, e atuam, com um pé na legalidade e com apoio de dentro do governo. Evidente que os roubos e furtos aumentaram nesse período, minando a segurança de toda a sociedade, pois o Estado corroído pela bandalheira não mais pode proteger o cidadão. Muitos se beneficiaram, incluindo os setores sociais legais como a indústria, o comércio, os bancos e os grandes latifúndios agrícolas, que se calaram em razão dos altos ganhos auferidos. Reverter esse quadro não tem sido um trabalho fácil: baixar a inflação, encerrar as atividades de instituições bancárias fraudulentas, vender e privatizar estatais corrompidas, o combate ao crime organizado e democratizar a sociedade, são ações que têm enfrentado muita resistência dos que não querem perder seus privilégios.
O Sr. Paulo Maluf desde que ocupou a prefeitura de São Paulo pela primeira vez, isso em 1969 se não me engano, já levava a fama de corrupto. Quando foi governador em 1978 sua má fama já atingia altos índices. Dessa gestão, sua ação mais estapafúrdia foi a criação da estatal Paulipetro, para prospecção e exploração de petróleo em... São Paulo. Essa brincadeira custou milhões de dólares dos cofres públicos, e só serviu para o enriquecer ainda mais. Lembro que nessas duas gestões ele foi indicado para os cargos, pois as eleições diretas para o executivo tinham sido banidas. Com ele, muitos se beneficiaram na ditadura, como o polemico Severino, o ACM, e até o PT que já nasceu nessa época herdando o costume de enriquecer às custas do dinheiro público e alheio.
Com o passar dos anos eles acabaram perdendo a noção de limites, achando que tudo podiam e que nada iria lhes acontecer. Só que o Brasil mudou, e eles ainda não se deram conta. Que o diga o Lula e seu PT, que ao ocupar o Planalto Central fez apenas um plano de poder, e não de governo. Deu no que deu: “caiu do cavalo”, usando sua própria expressão.
Frase do deputado estadual Salim Curiati ao visitar Paulo Maluf na cadeia:
"Eu sinto saudade da ditadura".
Não é para menos, deputado. Não é para menos...
Escrito por Roberto Ibanhez às 00h10
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Cadeia nele
Acabo de ler a notícia que Paulo Maluf acabou de se entregar na sede da Polícia Federal. Enfim um dos maiores contraventores do país, criado e engordado durante a ditadura, está em cana.
Essa é uma boa notícia.
Escrito por Roberto Ibanhez às 01h57
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A Morte do Político
O Lula está andando tranqüilamente quando é atropelado e morre.
A alma dele chega ao Paraíso e dá de cara com São Pedro na entrada:
“Bem-vindo ao Paraíso!”; diz São Pedro. “Antes que você entre, há um probleminha. Raramente vemos presidentes por aqui, sabe, então não sabemos bem o que fazer com você.”
“Não vejo problema, é só me deixar entrar”, diz ele.
“Eu bem que gostaria, mas tenho ordens superiores. Vamos fazer o seguinte: você passa um dia no Inferno e um dia no Paraíso. Aí, pode escolher onde quer passar a eternidade.”
“Não precisa, já resolvi. Quero ficar no Paraíso”, insiste.
“Desculpe, mas temos as nossas regras.”
Assim, São Pedro o acompanha até o elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno. A porta se abre e ele se vê no meio de um lindo campo de golfe. Ao fundo o clube onde estão todos os seus amigos e outros políticos com os quais havia trabalhado. Todos muito felizes em traje social. Ele é cumprimentado, abraçado e eles começam a falar sobre os bons tempos em que ficaram ricos às custas do povo. Jogam uma partida descontraída e depois comem lagosta e caviar, só bebem whisky 24 anos e cercados de lindas ninfetas só de calcinha. Quem também está presente é o diabo, um cara muito amigável que passa o tempo todo dançando e contando piadas. Só gente "boa"!
Eles se divertem tanto que, antes que ele perceba, já é hora de ir embora. Todos se despedem dele com abraços e acenam enquanto o elevador sobe. Ele sobe, sobe, sobe e porta se abre outra vez. São Pedro está esperando por ele. Agora é a vez de visitar o Paraíso. Ele passa 24 horas entediantes junto a um grupo de almas contentes, que andam de nuvem tocando harpas e cantando. Tudo vai muito bem e, antes que ele perceba, o dia se acaba e São Pedro retorna. "E aí? Você passou um dia no Inferno e um dia no Paraíso. Agora escolha a sua casa eterna."
Ele pensa um minuto e responde:
"Olha, eu nunca pensei… O Paraíso é muito bom, mas eu acho que vou ficar melhor no Inferno."
Então São Pedro o leva de volta ao elevador e ele desce, desce, desce até o Inferno. A porta abre e ele se vê no meio de um enorme terreno baldio cheio de lixo. Ele vê todos os amigos com as roupas rasgadas e sujas catando o entulho e colocando em sacos pretos. O diabo vai ao seu encontro e passa o braço pelo seu ombro.
"Não estou entendendo"; gagueja o Lula. "Ontem mesmo eu estive aqui e havia um campo de golfe, um clube, lagosta, caviar, e nós dançamos e nos divertimos o tempo todo. Agora só vejo esse fim de mundo cheio de lixo e meus amigos arrasados!!!"
O diabo olha pra ele, sorri ironicamente e diz: "Ontem estávamos em campanha. Agora, já conseguimos o seu voto…"
Escrito por Roberto Ibanhez às 00h08
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Água Benta
Quando pequeno eu gostava muito de ficar na casa da minha avó. Nas férias escolares minha mãe fazia uma trouxinha de roupas, eu pegava alguns brinquedos e lá ia passar uma semana na casa dela. Ficava em Carapicuíba, município próximo daqui de Sampa, espremido entre Osasco e Barueri. Como ela e meu avô sempre viveram em fazenda, antes de migrarem para cá, então a casa deles ainda conservava vários hábitos e aquele jeitão caipira de gente da roça. Havia poucas casas nos arredores, então os terrenos vizinhos eram agregados à propriedade fazendo com que ficasse com dimensões de uma pequena chácara. Lá existia um grande gramado ao lado e um quintal de terra batida onde eu rolava e brincava. Havia galinhas, gatos e cachorros soltos, e também um limoeiro, uma goiabeira e um pé de jabuticaba. Nos terrenos adjacentes ainda tinha plantação de cana-de-açúcar, mandioca, milho, flores e uma pequena horta. Hoje, o local é um amontoado de casas mal construídas e sem planejamento, típico da maioria de municípios dormitórios. Acabou o canto de galo pelas manhãs.
Minha avó ouvia o rádio praticamente o dia todo, durante a lida dos afazeres domésticos. Além dos programas musicais e de fofocas, por ser ela crédula e religiosa também os programas voltados para assuntos da alma e religiosos, tinham sua preferência. De três deles eu me lembro bem. Um fazia parte do programa do Silvio Santos. Ela adorava o Silvio, pois o considerava boa praça e amigo do povo (eu disse que ela era crédula). Então ela ouvia o programa inteiro e com atenção especial para o seguimento “Histórias que o Povo Conta”. Em formato de rádio teatro ali se dramatizava um conto onde pessoas haviam tido algum contato, ou visto um fantasma ou alma penada. Eram histórias de pessoas que tinham comido carne na sexta-feira santa, dançado na quaresma ou mesmo renegado deus, e teriam cruzado com o próprio capeta ou mesmo com a alma de algum ofendido, geralmente para dar uma lição. O pecador, depois do susto, se arrependia e acabava se convertendo depois da aparição. Eu adorava ouvir essas historietas de terror devido a sonoplastia fantasmagórica. Era arrepiante.
O outro programa preferido dela se chamava “Milagre da Fé”. Também no formato rádio teatro esse não era de terror, mas voltado para histórias de pessoas que depois de muito sofrer e rezar acabava recebendo uma graça, ou se curando de uma doença incurável, ou conseguindo um emprego, ou mesmo uma chuva milagrosa na horta. Esse programa eu achava muito chato, pois não tinha suspense nem gemidos de fantasmas.
No último deles, às seis da tarde fechando o dia, tinha a bênção de um tal padre Donizete. Acontece que ele já havia falecido e deixado uma gravação que era explorada por um esperto de plantão. O sujeito, com sua lábia, contava histórias de milagres e convocava os ouvintes para o culto de domingo em sua igreja. Assim ele enriqueceu e se elegeu vereador mais de uma vez. No final do programa ele soltava a gravação do padre. Minha avó então pegava um copo com água e colocava ao lado do rádio. Com a cabeça abaixada cobria os olhos com mão direita em posição de fé, e tocava o rádio com a esquerda para melhor receber a graça. Terminada a oração do padre, que não devia durar mais que um minuto, o locutor rezava uma “ave-maria” e encerrava o programa. Minha avó, então, fazia o sinal da cruz e me estendia o copo, agora com a água-benta para que eu bebesse um golinho.
Voltando para casa eu não continuava a ouvir o programa com as histórias de fantasmas, pois faltava o contexto, os ares da casa de minha avó e, claro, a presença dela para dar sentido.
Em tempo: não me tornei crédulo nem religioso.
Escrito por Roberto Ibanhez às 23h06
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Gororoba
Segundo os dicionários, gororoba é o mesmo que comida ruim ou mal feita. Mas, há alguns dias atrás eu lia um artigo de um gourmet onde ele exaltava aquela gororoba deliciosa apreciada na casa de sua avó, e que ela não dava a receita nem ameaçada de seqüestro. Continuando o artigo, dizia ele que não havia segredo algum, pois o que a avozinha fazia era apenas juntar as sobras que estavam na geladeira, dar um toque, e pronto. A avó não dava a receita porque não havia receita. Cada gororoba é única e não se repete.
Pensando cá comigo, concluí que toda “mistureba” que faço no prato quando vou comer é gororoba. Explico: na medida que vou comendo eu misturo os alimentos que estão no prato porque fica mais saboroso. Se for um prato de arroz e feijão, coloco o feijão por cima do arroz e vou misturando. Se ainda tiver um ovo frito, o coloco por cima de tudo, furo a gema e vou comendo com tudo misturado. Se for um picadinho de carne com batatas, as amasso e misturo ao arroz e feijão. Fica tudo muito mais saboroso quando tudo é misturado. Então vi que sou um apreciador de gororoba, pois a faço no meu prato.
Também fiquei pensando nos pratos que mais gosto, e vi que a maioria deles são gororobas que viraram receitas. Olha só que interessante. Então escolhi três deles como exemplo para poder discutir com vocês esse saboroso assunto.
1º Feijoada
A origem dessa iguaria é uma gororoba: os escravos acrescentavam ao feijão as partes do porco desprezadas pelos patrões. Hoje é preparada com, além dos miúdos do porco, embutidos, charque e servida com arroz, farinha de mandioca torrada, couve picada e refogada, e laranja em rodelas. De sabor excepcional, ainda é muito energética e nutritiva. E de quebra um excelente afrodisíaco.
2º Estrogonofe
Prato de elite até passado recente, até o povo descobrir que essa gororoba é fácil de fazer por levar ingredientes simples. Tudo misturado ao arroz bem soltinho e fritas, acompanhado por um tinto leve é uma festa de sabor e alegria. Desconheço se é afrodisíaco, mas o vinho com certeza o é.
3º Vatapá
Gororoba para nenhum baiano botar defeito. A mistura de seus ingredientes mais o azeite de dendê, resulta num dos pratos mais sensual ao paladar de nossa riquíssima culinária. Não esqueço a primeira vez que degustei essa maravilha na casa de uma família baiana (já havia provado antes em feiras e exposições). A moça da tal família era colega de grupo na faculdade. Um dia resolvemos nos convidar para ir provar o vatapá de sua mãe, já que ela sempre falava tão bem. Fechado o dia e o horário, surgiu um serio empecilho: a mãe exigiu uma panela das grandes, pois ela se recusou a fazer em mais de uma panela para não alterar o sabor. Comentando o nosso impasse aqui em casa dei a sorte de minha mãe conhecer um local que alugava panelas. No dia seguinte fui para a faculdade com a boa nova e o endereço, e duas das moças do grupo imediatamente trataram de providenciar o tacho nas medidas exigidas. No dia seguinte, à noite, estávamos lá ansiosos e famintos. Cada um recebeu um prato, já feito, com uma porção muito reforçada e mais um enorme pedaço de peixe. Olhei e pensei: “não como tudo isso”. Mas quase lambi o prato.
Como demonstrado, comida gostosa tem que ser gororoba. Um dia escreverei um tratado sobre isso.
Agora vou passar para vocês uma receita minha de uma gororoba bem simples e fácil de fazer. Para as noites quentes, onde um jantar é demais e um sanduíche é de menos, essa estará na medida.
Pegue aquela 200 gramas de carne moída que está congelada lá no freezer e refogue com alho, sal, cebola e mais o que estiver às mãos. Quando a carne estiver pronta junte dois ou três ovos já batidos. Vá mexendo. Em seguida junte ⅓ do conteúdo de uma lata de ervilhas. Tire do fogo e sirva com arroz branco bem soltinho. Acompanha vinho branco ou cerveja bem leve. Para sobremesa, corte alguns pedacinhos das frutas que você tem em casa (maçã, mamão, banana, morango, etc), coloque leite condensado e, se tiver, junte um pouco de licor de qualquer sabor.
VIVA A GOROROBA!!!
Escrito por Roberto Ibanhez às 22h07
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